Festa do Mastro de Capela: Tempo, Amor e Tradição

Existem tradições que atravessam gerações. Existem festas que resistem ao tempo. E existem celebrações que se tornam parte da própria identidade de um povo. A Festa do Mastro de Capela pertence a essa rara categoria de patrimônio vivo que não se limita a uma data no calendário, mas se transforma em memória, sentimento e pertencimento.

Ao completar 87 anos de história, a Festa do Mastro convida todos nós a uma reflexão sobre os valores que sustentam sua permanência ao longo das décadas. Mais do que uma festividade popular, ela é uma expressão coletiva construída sobre três pilares fundamentais: o tempo, o amor e a tradição.

O tempo é o grande testemunho dessa trajetória. Desde 1939, quando foi idealizada pelos Irmãos Melo, a festa acompanha as transformações de Capela, do estado de Sergipe e do próprio Brasil. Gerações nasceram, cresceram e partiram deixando suas marcas nessa celebração. O tempo mudou costumes, ampliou horizontes e trouxe novas formas de viver, mas não foi capaz de apagar a essência da Festa do Mastro.

O amor está presente em cada detalhe. Está na dedicação das famílias que preservam os rituais, nos moradores que acolhem visitantes, nos fogueteiros, nos músicos, nos brincantes e em todos aqueles que se empenham para manter viva uma tradição que aprenderam a respeitar desde a infância. É o amor pela terra natal, pela história dos antepassados e pelo sentimento de comunidade que faz a festa acontecer ano após ano.

Já a tradição é o elo que une passado, presente e futuro. Ela se manifesta na Sarandaia, na Marcação do Mastro, na escolha da Rainha do São Pedro, na Missa do Fogueteiro, no Casamento da Viúva, no Folguedo da Baiana, na Busca do Mastro e na emocionante Queima do Mastro. Cada um desses momentos representa muito mais do que uma programação festiva. São símbolos carregados de significados, narrativas e lembranças que formam a identidade cultural do povo capelense.

As Bandas de Pífanos e os Bacamarteiros também ocupam lugar de destaque nessa construção histórica. Seus sons e suas performances não apenas animam a festa; eles ecoam a memória de gerações que encontraram na cultura popular uma forma de preservar conhecimentos, fortalecer vínculos comunitários e afirmar sua identidade.

Vivemos em uma época marcada pela velocidade das transformações. Novas tecnologias, novos hábitos e novas formas de interação modificam constantemente a sociedade. Nesse cenário, preservar tradições torna-se um ato de resistência cultural. Quando uma comunidade valoriza suas manifestações populares, ela protege sua própria história e garante que as futuras gerações saibam de onde vieram.

O maior patrimônio da Festa do Mastro não está nos palcos, nos espetáculos ou na grandiosidade do evento. Seu verdadeiro valor encontra-se na memória afetiva construída ao longo de quase nove décadas. Está nas lembranças compartilhadas entre avós, pais e filhos. Está nas histórias contadas nas calçadas, nos encontros familiares, nas fotografias antigas e nos relatos daqueles que fizeram e continuam fazendo parte dessa trajetória.

A Festa do Mastro permanece viva porque o povo de Capela continua reconhecendo nela uma parte de si mesmo. Cada pessoa que participa da Busca do Mastro, acompanha a Sarandaia, prestigia os folguedos, ou simplesmente transmite uma lembrança às novas gerações contribui para manter acesa uma chama que o tempo não consegue apagar.

Celebrar os 87 anos da Festa do Mastro é celebrar a força da cultura popular. É reconhecer o valor daqueles que vieram antes de nós e abrir caminhos para aqueles que ainda virão. É compreender que a memória não pertence apenas ao passado, mas também ao presente e ao futuro.

Porque o tempo, quando encontra raízes profundas, transforma uma simples festa em patrimônio de um povo.

E enquanto houver quem carregue o mastro, toque o pífano, acenda o foguete, dance a Sarandaia, preserve os folguedos e conte as histórias dos antigos, a Festa do Mastro continuará sendo muito mais do que uma celebração.

Continuará sendo a mais autêntica expressão da memória, do pertencimento, do amor e da resistência cultural do povo capelense.

Por Josival Bezerra, professor da rede pública estadual, especialista em Comunicação e Marketing, natural de Capela, Sergipe.

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